
Numa manhã destas, perdido no meio do trânsito e vendo o ponteiro do relógio andar mais depressa do que o carro, dei comigo a rir-me como um desalmado. O motivo desta inesperada e surpreendente boa disposição era uma crónica de Nuno Markl sobre a série televisiva “Uma Casa na Pradaria”.
No final de alguns minutos de devaneio radiofónico, o pensamento fugiu-me para a definição de “Serviço Público”. Acho que ninguém pode duvidar que Nuno Markl, ao debitar um sem número de disparates a um ritmo alucinante, está a prestar um verdadeiro serviço público.
Num país entristecido, no meio de um brutal engarrafamento, umas sonoras gargalhadas têm o sabor de uma sessão de psicanálise com um qualquer afamado especialista.
Como contrapartida ao serviço público de Markl estão os deprimentes programas televisivos que ocupam as manhãs dos principais canais portugueses. O conteúdo destes inerráveis shows pode traduzir-se em horas de observação da desgraça alheia, seja ela à custa de um toxicodependente, de um pobrezinho, de um deficiente ou de um colunável.
Quando achava que tinha chegado a uma brilhante conclusão, um toque entre duas viaturas encravou ainda mais a circulação automóvel e aumentou a minha disponibilidade para pensar.
Parti então em busca dos telespectadores tipo dos “Fátimas”, “Gouchas” ou “Gabrieis”. Depois de ter andado mais vinte metros, cheguei è dedução que quem vê estes programas são os desempregados, os reformados, os doentes, em resumo, os desafortunados desta sociedade. Imagino que, ao visualizarem a miséria dos outros, a autoestima dos telespectadores suba alguns pontos. Assim, obtive outra brilhante conclusão: as manhãs da TV portuguesa também são serviço público.
Mas, como os condutores acidentados não se entendiam, ainda tive tempo para atribuir a categoria de “Serviço Público” às principais estradas portuguesas em “hora de ponta”. Se não fossem os minutos gastos no meio da confusão rodoviária, onde é que se arranjaria tempo para pensar?

1 comment
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Março 17, 2008 às 6:45 pm
ronaldo7
Escreves bem demais, para quem é, bacalhau basta. lol