No final de uma tarde do início da década de oitenta, saí de uma sala de cinema totalmente siderado. Tinha ido sozinho, sem qualquer informação adicional ou ideia pré concebida e, confesso, sem grandes expectativas. Cerca de duas horas depois, sentia que tinha acabado de ver uma coisa única.
O contacto com a luz solar fez-me estremecer e comecei a andar sem destino. A distância percorrida não foi muita, apenas meia dúzia de metros, os suficientes para ir da porta lateral até à bilheteira do cinema. Entrei no pequeno átrio pois percebi que tinha que ver, novamente, os pequenos rectângulos de cartão que emolduravam as fotos do filme e davam um resumo da ficha técnica (as saudades que tenho desse cartazes).
Mal entrei vi dois dos amigos com quem andava diariamente e que tinham ido ver o filme no dia anterior. Não me lembro do que disse quando me perguntaram o que tinha achado do filme, mas recordo perfeitamente a cara que fizeram depois de me ter expressado. Os sorrisos de todos davam mais força à cumplicidade que já existia entre nós. Curiosamente, nesse dia não voltamos a falar do filme, mas depois passamos horas a discutir todos os pormenores.
O núcleo de admiradores foi crescendo, o filme era uma referência, uma senha, e quem não partilhasse da devoção era rapidamente votado ao ostracismo. Era o filme de uma geração.
Voltei a ver a película as vezes necessárias para lhe perder a conta, no entanto, só a vi uma vez na televisão apesar de a ter em casa. A posse do filme dá-me tranquilidade uma vez que sei que o posso ver a qualquer momento, mas também tenho consciência que só posso usufrui-lo, na sua plenitude, numa escura sala de cinema.
O filme em questão chama-se Blade Runner e o autor desta obra-prima é o realizador Ridley Scott.
P.S.: “Blade Runner – Perigo Iminente: Versão Final” estreou esta semana em Portugal. Infelizmente, só está em exibição numa sala de Lisboa.

1 comment
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Abril 30, 2008 às 2:16 am
Janita
Só podia. Uff, adivinhei antes de acabar de ler, que alívio. Sei lá podia ser sempre ” The Woman in red” ou outra dessas charopadas dos oitenta